
Creio que quase todos os habitantes dos países
desenvolvidos conhecerão o
Lego.
É um brinquedo de origem dinamarquesa que está este ano a festejar os seus 50 anos! O
conceito é bastante elementar: o brinquedo é composto por um conjunto de peças
individuais de plástico, em formas estandardizadas e normalmente em cores muito
garridas, que se podem encaixar umas nas outras, fixando-se com uma força
intermédia.

Esse é o segredo do sucesso do Lego: essa força
intermédia permite que as construções feitas com aquelas peças tenham uma
robustez razoável mas, ao mesmo tempo, permitem que a construção possa ser
desfeita facilmente e, aproveitando as mesmas peças, se faça uma outra
construção. De um jogo podem-se criar uma infinidade de brinquedos, dependendo
da imaginação do utilizador.

Mas o Lego também é uma história de sucesso
empresarial tendo, nos últimos 50 anos, feito uma evolução muito bem sucedida da
Dinamarca para o Mundo em que se foi sempre adaptando ao gosto das novas
gerações de consumidores. Nesse aspecto, através da evolução dos produtos da
Lego podemos ver também, como num espelho, a forma como nas nossas sociedades
tem evoluído o tratamento que damos às crianças.

Notem-se as construções desta caixa do princípio dos
anos 60 que aparece aqui em cima e note-se a rusticidade dos pormenores das
construções, nomeadamente o avião empunhado pelo rapazinho. É o Lego do
meu
tempo*, em que,
havendo uma variedade de peças limitada, era preciso ser-se muito imaginativo e
a sofisticação da construção, como é o caso do avião abaixo, nos indicava, com
algum rigor, qual seria a idade do construtor...

Havia contudo uma pressão natural entre os
consumidores para que a Lego fabricasse peças que possibilitassem construções
que fossem cada vez mais rigorosas e de acordo com os originais. Continuando nos
aviões, no final da década de 60 as réplicas como a do
Caravelle que aparece
abaixo, apesar de ainda rústicas, contêm peças já desenhadas com um formato
próprio para asas de avião moderno.

Mais do que isso, as caixas vinham agora
acompanhadas com manuais explicativos para a montagem – quem não quisesse usar a
imaginação podia não o fazer. Mas o Lego deixava de ser exclusivamente o Lego
criativo original para se poder vir a tornar também numa espécie de modelismo
feito com peças de plástico que se encaixam… Depois, em meados da década de 70,
quebrou-se um outro
tabuimportante.

Até então o objecto da brincadeira fora a própria
construção, fosse ela uma casa ou um navio. O efeito de escala pertencia à
imaginação do construtor: a mesma quantidade de peças que servira para construir
um enorme
arranha-céus numa escala 1/1000 podia servir depois para
construir uma pistola numa escala 1/1. Com a introdução dos bonecos (acima), a
Lego assumiu uma escala
indicativa, ajustada ao tamanho deles.

Quando voltei ao contacto com o Lego foi já no
estatuto de pai e ele passara por todas aquelas transformações. Para o meu
filho, o processo meticuloso (e complexo…) de construção do barco de piratas
acima nada tinha de interessante: o resultado final era-lhe
oferecido
numa enorme fotografia na caixa da embalagem! Enquanto o pai montava, o que ele
queria mesmo era brincar com os piratas… e depois com o barco.

Hoje em dia, fazem-se coisas maravilhosas com Lego,
compare-se o avião acima com os iniciais. Mas aquilo já não é propriamente um
jogo, é um ramo especializado do modelismo. Não sei se desde a geração do meu
filho terá havido muitas crianças que tenham brincado
verdadeiramente
com o Lego – podem ter brincado, mas foi sobretudo com adereços feitos de Lego,
o que é uma coisa completamente diferente…

As crianças de todas as gerações têm tendência para
ser imaginativas e, de uma forma ou outra, arranjam sempre maneira de exercitar
a imaginação. E, claro, entre qualquer coisa que esteja pronta e outra que tome
tempo a consumir, preferem a primeira. Esta evolução que aqui descrevi do Lego
diz muito mais sobre o que aconteceu aos valores das sociedades que nos rodeiam
do que propriamente sobre as crianças...